Mesmo com os preços do petróleo se sustentando neste início de 2026, diante da tensão política no Irã, analistas e gestores começam a avaliar que a Petrobras não terá geração de caixa suficiente para manter sua atual política de investimentos – e dividendos – sem aumentar a dívida.
O barril do Brent é negociado hoje perto dos US$ 64, mas bancos como a Goldman Sachs reduziram recentemente a projeção para a cotação média deste ano para US$ 56, diante de dados apontando crescente excesso de oferta.
A visão baixista para a commodity é generalizada no mercado, e vem num momento em que a Petrobras pisa no acelerador, com um plano de investir US$ 19,4 bilhões este ano e US$ 21 bilhões em 2027, sem contar aquisições.
“No mundo inteiro as empresas de petróleo estão se preparando para um inverno, e a Petrobras está indo num caminho diferente. Tudo bem investir, é uma opção da empresa, mas não dá para fazer tudo,” João Landau, o sócio e CIO da Vista Capital, disse ao Brazil Journal.
Depois de quase seis anos comprada em Petrobras, – inclusive em 2023, quando muitos no mercado estavam céticos, temendo um corte agressivo de dividendos no governo Lula – a Vista agora está vendida na ação desde julho passado.
Se confirmado o ambiente de petróleo baixo, “a Petrobras só teria duas opções: reduzir o capex ou parar de pagar dividendos,” disse Landau. “Senão, a companhia vai começar a se alavancar para níveis preocupantes.”
Os analistas do BTG, Rodrigo Almeida e Gustavo Cunha, entendem que o patamar de preços atual já não é suficiente para a Petrobras manter o dividend yield que o mercado espera, de 10%, sem aumentar seu endividamento.
“Estimamos que o Brent precisaria ficar em média a US$ 67,50/barril para a Petrobras atingir a neutralidade de fluxo de caixa em 2026,” escreveram os analistas.
No cenário atual, o time do BTG espera que a alavancagem da Petrobras suba em 2026 e 2027, justificando sua recomendação “neutra” para a ação.
Na Petrobras, o cálculo é diferente, e a visão é de que a conta fecha, sim.
A estatal disse que seus planos consideram para este ano um “Brent de equilíbrio” de em média US$ 59, o “necessário para honrar os compromissos financeiros, sem adição de dívida.”
Embora abaixo do preço atual do barril, o valor está acima de projeções como a do Goldman e a mais recente do Departamento de Energia dos EUA, de US$ 56 para 2026.
“Sabemos que o ambiente externo apresenta elevado grau de incerteza, em especial por conta das questões geopolíticas, o que requer nosso monitoramento contínuo. Contudo, as premissas consideradas no Plano de Negócios 2026-30 já incorporavam esse contexto.”, a Petrobras disse em uma nota ao Brazil Journal.
Uma eventual decisão de cortar dividendos teria um impacto negativo sobre o sentimento do mercado – o dividend yield de dois dígitos, acima dos pares internacionais, tem sido um dos atrativos da tese de investimento da Petrobras – além de prejudicar a arrecadação do governo, que luta para cumprir sua meta fiscal.
“Agora o governo do PT, que por tanto tempo criticou os dividendos, vai continuar pagando em uma hora em que não deveria? Até o mercado financeiro começa a se questionar se a empresa não deveria ser mais conservadora,” disse Landau.
A alternativa – diminuir os investimentos – também não é tão simples no curto prazo.
“O capex de 2026 está praticamente fechado, só alguns itens menores que não têm contrato assinado. Não tem muito o que mudar. Empresa petrolífera não é igual a uma padaria,” disse o sócio da consultoria MA2 Energy, Marcelo de Assis.
Além disso, uma redução de capex em ano eleitoral ainda enfrentaria resistência política. O Plano de Negócios da Petrobras está alinhado à agenda do Presidente Lula – que tem pedido publicamente que a empresa funcione como “indutora do desenvolvimento” e seja “cada vez maior.”
Essa agenda de expansão, inclusive, deve passar por aquisições em setores como etanol e renováveis ainda em 2026, conforme já sinalizado pela gestão da estatal.
“Isso acrescenta um elemento de risco na tese,” disse o analista da Genial, Vitor Sousa, pontuando que esses setores têm retorno menor que o petróleo.
“É esse o racional hoje: o governo está acelerando o investimento no momento em que o petróleo caiu, e querendo investir em coisa pior. Em algum momento vai ter que parar de pagar dividendo? Está mais arriscado,” disse Sousa, que recomenda “manter” a ação.
Com o mercado levando em conta esses riscos, a Petrobras negocia com múltiplo EV/EBITDA de cerca de 2,5x, abaixo de rivais integradas como a TotalEnergies (3,8x) e a Shell (4,6x).
Por outro lado, num contraponto à sua própria visão mais cautelosa, o BTG pondera que as eleições poderiam ser um catalisador, levando o mercado a antecipar a precificação de mudanças na empresa. E, como a Petrobras não deve cortar o dividendo, o investidor “ainda estaria sendo pago para esperar”.
Na ponta dos comprados, um gestor posicionado em Petrobras desde 2020 disse que mantém a aposta por ainda esperar bons proventos e pela visão positiva sobre o operacional da empresa.
“Não estão colocando na conta a melhora na produtividade da companhia, os ramp-ups de novos campos e a possibilidade de uma piora no cenário geopolítico. Ao mesmo tempo, a Petrobras vem apostando que os custos devem diminuir com o aumento de produção, o que faria ela sair na frente de todos os outros,” disse.
Após a última divulgação de resultados da Petrobras, a CEO, Magda Chambriard, admitiu que o momento é “de preços baixos” para o petróleo. Mas escreveu no Linkedin uma provocação que tem repetido também nas conferências da companhia com investidores. “Como tenho dito, quem apostar contra vai perder!”
Os credit default swap (CDS) da Petrobras – derivativos usados para proteção de risco de crédito – ainda não precificam uma piora de cenário para a empresa, com pouca variação recente e mantendo correlação com o CDS brasileiro.
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