Há alguns anos, Guilherme Benchimol, o fundador da XP, decidiu antecipar a mesada que daria às suas filhas mais velhas – de 14 e 16 anos – até elas completarem 21 anos.
“Mesada é como se fosse um salário. Mas elas são herdeiras e precisam aprender a viver com abundância e decidir como e quando gastar,” Benchimol disse a uma plateia de 20 jovens herdeiros reunidos na sede da XP.
Esse público forma a primeira turma de um programa de treinamento para famílias empresárias que a XP criou em parceria com a Cambridge Family Enterprise Group (CFEG), a consultoria fundada por John Davis, um dos maiores especialistas no assunto e professor da MIT Sloan School of Management.
“Uma das grandes angústias dessas famílias é como formar a próxima geração, e a angústia dos jovens herdeiros é como fazer frente às expectativas da família,” Cesar Chicayban, o CEO do XP Private Bank, disse ao Brazil Journal. “O programa foi desenhado para ajudar nisso. Sabemos que o capital nem sempre envelhece bem.”
Pesquisas mostram que apenas um terço das empresas de controle familiar chegam à terceira geração, e 15% sobrevivem a ela – por isso, é comum ouvir sobre a “maldição da terceira geração”.
A XP selecionou herdeiros da segunda à quarta geração. Ao longo de 12 meses, os quatro módulos do curso vão abordar temas como modelos de organização familiar, busca e formação de talentos, planejamento sucessório, gestão de ativos e crescimento patrimonial.
Segundo um estudo da CFEG, as famílias que conseguem manter seus negócios por várias gerações têm três características em comum: união familiar – “não significa harmonia necessariamente, mas união de propósito” –, crescimento dos ativos (operacionais e/ou financeiros) e busca por talentos, dentro e fora da família.
Durante a primeira tarde do curso, que aconteceu no fim de setembro, a consultoria pediu que os participantes respondessem a algumas perguntas anonimamente, por meio de um link.
Uma das questões era: O que pessoas de fora não imaginam sobre como é viver numa família envolvida em negócios?
As respostas: o peso do legado, a pressão constante, a falta de separação entre pessoal e profissional, o medo de falhar, o desafio de mostrar seu valor a pessoas próximas bem-sucedidas, o receio de mostrar inexperiência e “muitos acham que é só sorte”.
Os herdeiros listaram ainda o que veem como as principais vulnerabilidades de suas famílias nos negócios: a sobrecarga em cima de algumas pessoas, a competitividade dentro da família, as críticas constantes, a falta de união, as dificuldades na sucessão.
Saindo do anonimato, uma dúvida de diferentes participantes é se devem trabalhar na empresa da família – e como se preparar para isso.
“Como saber se eu realmente tenho o que agregar?” perguntou uma integrante da terceira geração.
Um outro herdeiro, que veio de Brasília e está na faculdade, quis saber como lidar com a expectativa dos fundadores de que ele comece a trabalhar logo para que eles possam reduzir o ritmo. “Acho que devo ter uma experiência em outra empresa antes.”
Halina Matos, sócia da CFEG no Brasil, mostrou que existem diferentes maneiras de participar dos negócios familiares. Uma delas é trabalhar nas empresas, mas também é possível atuar na gestão do patrimônio ou em conselhos.
“Herdar e gerir os negócios da família é uma responsabilidade. Mas trabalhar na empresa é uma escolha,” disse ela.
Halina deu o exemplo de uma psiquiatra herdeira de uma empresa do setor imobiliário, cujo papel é ser mediadora de conflitos no conselho da família. “Ela se preparou para isso, fez diferentes cursos. Não está no dia a dia dos negócios, mas tem uma função importante e ligada ao seu perfil.”
José Berenguer, o CEO do Banco XP, contou sobre seu filho, que é músico. Sua expectativa era que ele fosse se preparar para ser um executivo de grandes bancos e empresas – como o próprio Berenguer, seu pai e avô. “Mas ele não veio com esse chip.”
“Uma vez, disse que ele deveria trabalhar um período comigo no JP Morgan. Depois de uns dias, ele disse: Adorei. E eu: Sério? Ele: Sim. Agora tenho certeza absoluta de que não quero fazer isso. E ele estava certo.”
Na segunda tarde do curso, no início de dezembro, Halina falou sobre os perfis mais comuns de sócios – obstrutivo, passivo, apoiador, ativo e empreendedor –, como identificá-los, e qual o papel de cada um dentro da empresa.
Segundo ela, é importante identificar e formar um sócio empreendedor – dentro ou fora da família – porque é ele que ajuda a criar “novos ciclos de crescimento”.
Os participantes também ouviram uma palestra de Leonardo Farah, capitão da reserva do Corpo de Bombeiros. Ele trabalhou em Brumadinho e Mariana após o rompimento das barragens e co-fundou a Humus, uma associação de prevenção e resposta a desastres.
Na XP, falou sobre como “forjar líderes para o inesperado”. “Uma coisa que aprendi é que ninguém vai te agradecer por uma crise que você evitou,” disse ele. Mas evitar uma maldição geracional é diferente.
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