Philippe Ormancey deixou a liderança da Arcelor Mittal na América do Sul para fundar a Chez France. E explicou à Bloomberg Línea as diferenças de produção da FrPhilippe Ormancey deixou a liderança da Arcelor Mittal na América do Sul para fundar a Chez France. E explicou à Bloomberg Línea as diferenças de produção da Fr

Por que o vinho francês é caro no Brasil. E como uma importadora tenta mudar isso

2026/01/25 03:06

Beber um bom vinho francês por menos de 10 euros é algo trivial na França e faz parte do cotidiano da maior parte da população. No Brasil, onde a média dos vinhos comprados nas lojas não passa de R$ 50, rótulos franceses equivalentes dificilmente chegam às prateleiras por menos de R$ 150.

A discrepância de preços não é apenas resultado de impostos elevados ou logística complexa. Ela começa na própria estrutura da viticultura francesa, segundo Philippe Ormancey, sócio fundador da importadora Chez France.

“O modelo francês é completamente diferente do de países como Chile, Argentina ou Portugal”, disse Ormancey em entrevista à Bloomberg Línea.

“O vinho francês é feito por milhares de pequenos produtores. Só em Bordeaux são cerca de 8.000. Na Borgonha, mais de 5.000. Isso faz com que o vinho, na origem, já não seja barato.”

Diferentemente de mercados voltados à exportação e organizados em grandes grupos, a França atua majoritariamente com produtores familiares, muitas vezes em nível artesanal.

Esse modelo limita ganhos de escala e encarece o custo final, especialmente quando o destino é um país com carga tributária elevada como o Brasil.

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Segundo Ormancey, essa característica também explica por que o vinho francês raramente é tratado como commodity.

“Você tem dois grandes tipos de vinhos. O vinho de proprietário e o vinho de negócio”, disse. “O vinho de negócio é produção de milhões de litros, comprado em volume, com rótulos diferentes e marketing. O objetivo não é fazer qualidade.”

Na França, segundo ele, esse segundo modelo existe, mas representa uma parcela menor da produção.

“O que predomina é o proprietário recoltant, aquele que trabalha o próprio terreno, não compra matéria-prima de terceiros. Isso garante uma qualidade totalmente diferente, porque é do próprio terroir”, explicou.

Philippe Ormancey, sócio fundador da importadora Chez France, depois de ter atuado como presidente da Arcelor Mittal na América do Sul

Essa lógica entra em choque direto com o perfil de consumo brasileiro.

O preço médio de uma garrafa de vinho no país é de até R$ 50. Para chegar a esse valor, considerando impostos e margens, o custo de aquisição na origem precisa estar próximo de 1 euro. “Esse vinho simplesmente não existe na França”, disse Ormancey. “Só o custo da garrafa, em muitos casos, já passa de € 0,80.”

Além da estrutura produtiva, o sistema tributário brasileiro amplia ainda mais essa diferença. Dependendo do estado e do regime fiscal, a carga total sobre o vinho importado pode chegar a 100%. Mesmo com incentivos, costuma ficar em torno de 70%, segundo o importador.

“Um vinho de 2 euros chega ao Brasil custando automaticamente 4 euros depois dos impostos”, disse. “Isso mata qualquer possibilidade de competir em preço com países que produzem em escala.”

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Curadoria

Diante do contexto desafiador, Ormancey decidiu criar a Chez France e apostar em um modelo oposto ao de grandes importadoras focadas em volume.

A empresa trabalha exclusivamente com importação direta, sem intermediários, e vende ao consumidor final por meio de e-commerce, televendas e clubes de assinatura.

“Eu importo com meus próprios contêineres, não compartilho com ninguém. Tenho meu centro de distribuição e vendo direto ao consumidor final”, disse.

Segundo ele, esse controle da cadeia é a única forma de reduzir custos sem abrir mão da curadoria.

A estratégia guarda semelhança com a trajetória corporativa do executivo, que foi presidente da ArcelorMittal na América do Sul.

“Na indústria do aço, a lógica era controlar tudo, da matéria-prima à distribuição. Aqui é a mesma coisa, só que em escala muito menor”, disse.

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Hoje, a Chez France importa cerca de 300 mil garrafas por ano, com um portfólio que reúne mais de 150 produtores franceses. O preço médio das garrafas gira em torno de R$ 120. Aproximadamente metade do faturamento vem de um clube de assinaturas, que tem cerca de 5.000 membros.

“Meu modelo é contar uma história”, disse Ormancey. “Trabalhar com parceiros que têm uma história familiar para contar e passar isso para o consumidor brasileiro.”

Ainda assim, ele reconhece os limites do modelo em um mercado em que o consumo de vinho segue pressionado.

“O mercado não está crescendo muito. Restaurantes estão reclamando, supermercados não vendem tanto volume”, disse.

O público da Chez France tem majoritariamente acima dos 40 anos, e a empresa tem dificuldade de acessar o consumidor de entrada, mais sensível a preço.

Uma possível inflexão pode vir do acordo comercial entre União Europeia e Mercosul, que prevê a redução gradual das tarifas de importação. Ormancey estima que a carga tributária sobre o vinho europeu pode reduzir o preço final no Brasil.

“Um vinho que hoje custa R$ 120 tem quase 70% de imposto nesse valor”, disse. “Se essa carga cair para 25%, meu preço médio pode ir para perto de R$ 80.”

Mais do que baratear rótulos, ele disse enxergar no acordo a chance de melhorar a qualidade média do vinho disponível ao consumidor brasileiro.

“O brasileiro que paga R$ 50 vai ter acesso a um vinho muito melhor do que tem hoje”, disse. “Pode ser um vinho que hoje custa R$ 70 e que passaria a ser vendido por R$ 50.”

Apesar do potencial, Ormancey advertiu que a mudança não será automática. Importadores terão de decidir quanto repassar da redução de impostos ao consumidor e quanto usar para recompor margens e fluxo de caixa. Ainda assim, ele disse acreditar que a transparência do mercado forçará algum ajuste.

“Todo mundo vai saber que a carga tributária caiu”, disse. “O cliente vai pedir um preço menor.”

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