Beber um bom vinho francês por menos de 10 euros é algo trivial na França e faz parte do cotidiano da maior parte da população. No Brasil, onde a média dos vinhos comprados nas lojas não passa de R$ 50, rótulos franceses equivalentes dificilmente chegam às prateleiras por menos de R$ 150.
A discrepância de preços não é apenas resultado de impostos elevados ou logística complexa. Ela começa na própria estrutura da viticultura francesa, segundo Philippe Ormancey, sócio fundador da importadora Chez France.
“O modelo francês é completamente diferente do de países como Chile, Argentina ou Portugal”, disse Ormancey em entrevista à Bloomberg Línea.
“O vinho francês é feito por milhares de pequenos produtores. Só em Bordeaux são cerca de 8.000. Na Borgonha, mais de 5.000. Isso faz com que o vinho, na origem, já não seja barato.”
Diferentemente de mercados voltados à exportação e organizados em grandes grupos, a França atua majoritariamente com produtores familiares, muitas vezes em nível artesanal.
Esse modelo limita ganhos de escala e encarece o custo final, especialmente quando o destino é um país com carga tributária elevada como o Brasil.
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Segundo Ormancey, essa característica também explica por que o vinho francês raramente é tratado como commodity.
“Você tem dois grandes tipos de vinhos. O vinho de proprietário e o vinho de negócio”, disse. “O vinho de negócio é produção de milhões de litros, comprado em volume, com rótulos diferentes e marketing. O objetivo não é fazer qualidade.”
Na França, segundo ele, esse segundo modelo existe, mas representa uma parcela menor da produção.
“O que predomina é o proprietário recoltant, aquele que trabalha o próprio terreno, não compra matéria-prima de terceiros. Isso garante uma qualidade totalmente diferente, porque é do próprio terroir”, explicou.
Essa lógica entra em choque direto com o perfil de consumo brasileiro.
O preço médio de uma garrafa de vinho no país é de até R$ 50. Para chegar a esse valor, considerando impostos e margens, o custo de aquisição na origem precisa estar próximo de 1 euro. “Esse vinho simplesmente não existe na França”, disse Ormancey. “Só o custo da garrafa, em muitos casos, já passa de € 0,80.”
Além da estrutura produtiva, o sistema tributário brasileiro amplia ainda mais essa diferença. Dependendo do estado e do regime fiscal, a carga total sobre o vinho importado pode chegar a 100%. Mesmo com incentivos, costuma ficar em torno de 70%, segundo o importador.
“Um vinho de 2 euros chega ao Brasil custando automaticamente 4 euros depois dos impostos”, disse. “Isso mata qualquer possibilidade de competir em preço com países que produzem em escala.”
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Diante do contexto desafiador, Ormancey decidiu criar a Chez France e apostar em um modelo oposto ao de grandes importadoras focadas em volume.
A empresa trabalha exclusivamente com importação direta, sem intermediários, e vende ao consumidor final por meio de e-commerce, televendas e clubes de assinatura.
“Eu importo com meus próprios contêineres, não compartilho com ninguém. Tenho meu centro de distribuição e vendo direto ao consumidor final”, disse.
Segundo ele, esse controle da cadeia é a única forma de reduzir custos sem abrir mão da curadoria.
A estratégia guarda semelhança com a trajetória corporativa do executivo, que foi presidente da ArcelorMittal na América do Sul.
“Na indústria do aço, a lógica era controlar tudo, da matéria-prima à distribuição. Aqui é a mesma coisa, só que em escala muito menor”, disse.
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Hoje, a Chez France importa cerca de 300 mil garrafas por ano, com um portfólio que reúne mais de 150 produtores franceses. O preço médio das garrafas gira em torno de R$ 120. Aproximadamente metade do faturamento vem de um clube de assinaturas, que tem cerca de 5.000 membros.
“Meu modelo é contar uma história”, disse Ormancey. “Trabalhar com parceiros que têm uma história familiar para contar e passar isso para o consumidor brasileiro.”
Ainda assim, ele reconhece os limites do modelo em um mercado em que o consumo de vinho segue pressionado.
“O mercado não está crescendo muito. Restaurantes estão reclamando, supermercados não vendem tanto volume”, disse.
O público da Chez France tem majoritariamente acima dos 40 anos, e a empresa tem dificuldade de acessar o consumidor de entrada, mais sensível a preço.
Uma possível inflexão pode vir do acordo comercial entre União Europeia e Mercosul, que prevê a redução gradual das tarifas de importação. Ormancey estima que a carga tributária sobre o vinho europeu pode reduzir o preço final no Brasil.
“Um vinho que hoje custa R$ 120 tem quase 70% de imposto nesse valor”, disse. “Se essa carga cair para 25%, meu preço médio pode ir para perto de R$ 80.”
Mais do que baratear rótulos, ele disse enxergar no acordo a chance de melhorar a qualidade média do vinho disponível ao consumidor brasileiro.
“O brasileiro que paga R$ 50 vai ter acesso a um vinho muito melhor do que tem hoje”, disse. “Pode ser um vinho que hoje custa R$ 70 e que passaria a ser vendido por R$ 50.”
Apesar do potencial, Ormancey advertiu que a mudança não será automática. Importadores terão de decidir quanto repassar da redução de impostos ao consumidor e quanto usar para recompor margens e fluxo de caixa. Ainda assim, ele disse acreditar que a transparência do mercado forçará algum ajuste.
“Todo mundo vai saber que a carga tributária caiu”, disse. “O cliente vai pedir um preço menor.”
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