NAOSHIMA, Japão – Quarenta anos atrás, era impossível pensar que esta ilha de 14 km², a 200 km de Kyoto, pudesse se tornar uma meca cultural que hoje atrai mais de 500 mil visitantes por ano apesar da pouca infraestrutura turística.
A atividade econômica aqui vinha da fundição de cobre – que ainda existe, mas nos anos 1980 havia deixado na ilha um rastro de poluição e vegetação degradada.
Foi aí que o governo local viu no sonho de um empresário a oportunidade de mudar o status quo – e aquele sonho transformou a realidade.
Hoje Naoshima – parte de um arquipélago de 3.000 ilhas espalhadas pelo Mar Interno de Seto – é um exemplo de como o Japão absorve ideias ocidentais e as leva além (muito além, neste caso).
O sonhador, neste caso, era Tetsuhiko Fukutake – o dono da editora Benesse, de livros didáticos – que queria retribuir seu êxito empresarial e se interessou por Naoshima inicialmente como um projeto educacional para crianças.
Após sua morte, nos anos 80, seu filho Soichiro Fukutake modificou o projeto do pai: uniu-se ao governo local para revitalizar a ilha por meio da arte moderna, integrando natureza e arquitetura. O projeto já está na terceira geração, com o neto, Hideaki Fukutake, que toca as iniciativas contemporâneas.
O Louisiana Museum, que fica numa casa a 40 minutos de Copenhagen, foi a maior referência de Soichiro, que também visitou o Dia:Beacon, em Nova York, e a Rothko Chapel, em Houston. O resultado não se parece com nenhuma das referências.
Primeiro, pela acessibilidade: Naoshima não é um day trip para quem está em Kyoto. Para chegar lá, você tem que pegar um trem e um ferry, e uma vez na ilha, se locomover usando a linha de ônibus local. (Não existe táxi nem Uber).
Segundo, pela arquitetura. O arquiteto Tadao Ando foi a mente genial por trás da execução do sonho dos Fukutake. Naoshima não seria o espetáculo que é sem sua arquitetura.
Ando projetou dez edifícios na ilha, começando em 1992 com a Benesse House, concebida como hotel e museu. A partir de 1998, o Art House Project transformou casas antigas em espaços artísticos. Uma delas abriga uma obra de James Turrell, que oferece uma experiência imersiva na escuridão onde com o tempo a cor se revela.
Em 2004, a abertura do Chichu Art Museum, uma construção subterrânea, projetou Naoshima internacionalmente. Na sequência, vieram o Lee Ufan Museum, em 2010, e em 2013 o Ando Museum, uma justa homenagem ao arquiteto. Mais recentemente, em maio de 2025, foi inaugurado o Naoshima New Museum of Art.
A arquitetura de Ando transformou a ilha — o percurso entre os prédios é feito a pé, de bicicleta ou com o ônibus local.
A arquitetura foi pensada para integrar a natureza com a arte. Além de Naoshima, o grupo Benesse tem museus em duas ilhas vizinhas: Teshima e Inujima — esta última a mais inabitada de todas, com menos de 40 habitantes, e apenas um museu.
Outro símbolo icônico da ilha — uma imagem que já rodava o mundo antes das mídias sociais criarem as viralizações — são duas esculturas monumentais de abóboras, cobertas por bolinhas pretas, marca registrada da artista japonesa Yayoi Kusama.
A mais conhecida é a obra amarela com bolinhas pretas instalada em um píer à beira-mar (já foi levada pela água durante um tufão e teve que ser substituída), e a segunda obra, vermelha de bolinhas pretas, fica logo na chegada do ferry que conecta a ilha, recebendo os visitantes no primeiro passo em terra firme.
Os museus mais antigos abrigam uma coleção moderna respeitável. Ao lado da bancada da recepção do Benesse House Hotel está uma escultura de mais de um metro de Giacometti. Difícil manter a naturalidade ao preencher os dados do check-in lado a lado com um Giacometti, sem multidões ou alarmes tocando, apenas sentindo a presença daquela figura esguia de bronze de um dos maiores gênios da arte moderna.
Naoshima permite essa intimidade com as obras — algo que não existe mais no mundo de filas de turistas para entrar em cada sala, checagem de bolsas em esteiras de raio-X e infinitas poses para o Instagram.
A experiência aqui, Japan style, é mais lenta e contemplativa. São poucos visitantes, o silêncio é absoluto dentro e fora dos museus, e a natureza muda a experiência de tal forma que não dá nem vontade de registrar em uma foto. Aliás, os museus proíbem expressamente fotos em suas salas.
No Benesse Hotel, até as 23 horas os hóspedes podem passear sozinhos pelas salas onde estão Yves Klein, Cy Twombly, Frank Stella, Basquiat, David Hockney e Roy Lichtenstein. (Para quem não é hóspede, a visitação termina às 17h30.)
No Chichu Art Museum, a sala com cinco telas do jardim japonês de Monet emociona — tanto pelas obras quanto pela experiência de estar ali com elas no próprio Japão, uma inspiração tão determinante para o pintor francês.
Ando projetou dois espaços para o coreano Lee Ufan: o museu em Naoshima e um espaço permanente em Arles. Os dois abrigam de forma perfeita as obras, que são o ápice da simplicidade. Ufan talvez seja um dos artistas que mais comunga com a filosofia de Naoshima, tornando material o vazio e estimulando a contemplação.
O museu mais novo, aberto em maio de 2025, foca em arte contemporânea do Japão e da Ásia, com grandes instalações (um acervo mais “instagramável” e menos contemplativo) de Takashi Murakami e Makoto Aida (Japão), Cai Guo-Qiang (China) e Do Ho Suh (Coreia).
Ali, para a alegria dos influencers, podem-se tirar fotos.
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